
Segundo Felipe Peixoto Braga Neto, "os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem — lingüisticamente falando — apenas de uais, trens e sôs. Digo-lhes que não." Imagino que alguns "não-mineiros" devem até se perguntar: como é possível caber uma locomotiva inteira dentro do bolso ou de uma caixa de sapatos? Isto porque, pra mineiro, a palavra "trem" pode ser usada nas mais diversas ocasiões.
- Esqueci de fazer um trem.
- Pega esse trem aí pra mim?
- Tô procurando um trem pra comer.
- Nossa, caiu um trem no meu pé e tá doendo um tanto...
Seja o contexto que for, nós mineiros sempre teremos essa palavrinha à qual recorrer. A insistência dos mineiros foi tanta que os dicionários incorporaram. O Houaiss diz, entre outros significados, que trem é palavra-ônibus usada em lugar de algo concreto. Segundo o dicionário, não é só gente de Minas que tem este regionalismo no vocabulário: em Goiás e Tocantins a expressão também é usada com este sentido (ou seja, qualquer sentido).
Mas, como disse Felipe Peixoto, além do famoso "trem", são inúmeras as expressões peculiares da fala mineira. Veja
aqui o texto que ele publicou sobre o assunto.
Essas variações de linguagem no dialeto da nossa terra incluem traços fonéticos interessantes, como aponta um autor da Wikipédia*:
- Apócope das vogais curtas:
parte é pronunciado
part' (com o "t" levemente sibilado).
- Assimilação de vogais consecutivas:
o urubu passa a ser
u rubu.
- Apócope do "d" nos gerúndios:
chovendo passa a ser
chuvenu.
Tomate passa ser
tumat' (com o "t" levemente sibilado).
- Permutação de "e" em "i" e de "o" em "u" quando são vogais curtas.
- Contração freqüente de locuções:
abra as asas passa a ser
abrazaza.
- Alguns ditongos passam a ser vogais longas:
fio converte-se em
fii,
pouco é dito
poco.
- Algumas sílabas são fundidas em outras.
lho passa a ser
i (filho => fii),
inho converte-se em
inh (pinho => pinh).
- Aférese do "e" em palavras iniciadas por "es":
esporte torna-se
sportchi.
É claro que estes são exemplos de apenas uma das variações linguísticas encontradas em Minas Gerais. Aqui, também tem gente que diz "debaixo da cama", em vez de um ligeiro "badacama". Enfim, segundo Alfredina Nery, professora universitária e consultora pedagógica, determinadas variedades lingüísticas dentro do país não são reconhecidas e muitas vezes são até rejeitadas por certas tradições culturais. Para algumas pessoas, essas variações são consideradas deficiências do falante. Preconceito lingüístico.
*Tudo bem, eu sei que a Wikipédia não é a fonte de informações mais confiável, mas eles citaram vários traços fonéticos aqui.